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04/01 22h53 2017 Você está aqui: Home / Cultura Weslley Nunes Imprimir postagem

Reisado do Canela, a maior expressão da folia de Reis em Oeiras

Você está aqui: Home / Cultura - com Weslley Nunes

O Portal Folha de Oeiras fez a cobertura da primeira noite de apresentação de um dos grupos culturais mais tradicionais do Piauí. Este grupo foi, em seu primeiro momento, comandado pelo seu maior ícone, senhor Quelé, hoje é comando pelo jovem morador do bairro Canela, Weslley Nunes, conhecido por Boy. O senhor Quelé foi morador do bairro em referência e é considerado o maior brincador de Reisado da cidade de Oeiras e região. Sendo ele o introdutor desta dança neste local. 

Este grupo vem com grandes atrações para o público de Oeiras e região. Entre as figuras antagônicas temos os Caretas, a Burrinha, Jaraguá, Nega do Fogo e o Boi. Cada uma dessas com os seus significados na dança. Hoje, com 23 anos de idade, Boy vai ao seu 14° (décimo quarto) ano de apresentação.

Fala do grupo

"Aqui estamos em mais um ano de trabalho. Nós que fazemos parte do Grupo de Reisado do Canela agradecemos em primeiro lugar a Deus por tudo que tem acontecido ao nosso grupo. Mesmo diante das imensas dificuldades arrumamos forças para sempre podermos mostrar nossa manifestação cultural que é de grande riqueza para a nossa cidade e que, infelizmente, pouco reconhecido por outros", Diz Boy.

Comecei a tomar gosto pela coisa quando ainda eu era criança com 9 anos de idade. Timidamente, ficava brincando com amigos do bairro. Montava boi de madeira, feito com “Grajau”, caretas de papel, e  instrumentos todos com latas. O tempo foi passando e eu percebia que aquilo estava ficando no meu sangue e que eu queria realmente dar continuidade. Foi aí que continuei levando a diante e cada ano que passava íamos nos aperfeiçoando mais. Lembro-me como hoje em tempos de escolas quando tínhamos o Folclore. Ficava louco pela aquela época. Foi neste ambiente que tive o maior incentivo. Foi quando eu estudava na Escola Municipal Francisquinha Martins, do bairro Canela, que hoje não funciona mais. Nossos professores nos motivava por demais. Entre elas mereço destacar a professora Zildete Rogrigues. Não media e até hoje não mede esforços pelo resgate da nossa Cultura.

Professora Zildete Rodrigues, uma das incentivadoras do grupo de reizado do Canela

Dançar o Reisado é uma das minhas maiores paixões. Faço tudo isso com muito gosto. Quando estamos no segundo semestre do ano já fico ansioso para chegar o dia das nossas apresentações que dão início no dia 24 de dezembro, com apresentação no patamar da Igreja Nossa Senhora da Vitória (Matriz). Neste ano, diante de alguns acontecimentos, decidimos adiar e apresentarmos no dia 29.

Acredito que, assim como outras manifestações culturais, o Reisado é uma marca de Oeiras e não podemos deixar acabar. Mesmo diante de qualquer obstáculo temos que nos manter fortes, já que temos a honra em poder representar o nosso maior ícone do Reis aqui em Oeiras e região, o senhor Quelé. Somos a nova geração daquele antepassado não muito distante.

Ás vezes fico triste pelo pouco reconhecimento dos nossos governantes municipais, estaduais e federais. Triste pela falta de apoio à nossa Cultura local. Grupos culturais comandados por pessoas sejam pobres ou não devem ter um suporte. Já que para todas essas figuras há um gasto. Em certos momentos, chego até a me endividar para comprar alguns materiais que faltam para o nosso grupo. Tudo isso feito não pensando em retorno financeiro pessoal (até porque não existe), e sim para manter viva, até quando eu puder o Reisado em Oeiras. Não sei ao certo, mas, se continuarmos assim, o Reisado em Oeiras e outros grupos podem estar com os dias contados. A não ser que tenhamos futuramente novas pessoas com sangue no olho para dar continuidade.

Nesta temporada 2016/2017, nossas apresentações se estenderão até o dia 04 de fevereiro. Onde, nesta data teremos a matança do Boi no bairro Canela. Estamos também com um projeto social de #ReisadoSolidário. O projeto consiste em arrecadar alimentos e durante o dia da última apresentação fazer distribuição no próprio bairro Canela. Esta é uma maneira de ajudar ao nosso próximo. Para isso, contamos com a ajuda do nosso povo e dos nossos empresários locais.

Conheça um pouco sobre os seus personagens

 

Embora o costume de festejar os Reis seja de procedência européia, mais precisamente da Península Ibérica, o folguedo do Reisado foi trazido para regiões piauiense por indivíduos de outras localidades. Devido talvez à falta de comunicação e à ausência de intercâmbio social e cultural, foi conservado em sua forma antiga naquelas zonas mais longínquas do interior. Este tipo de dança apresenta várias formas de enredo.

Os praticantes do Reisado personificam a história dos Gladiadores Romanos, dos Três Reis Magos e a perseguição aos cristãos. No Reisado também são introduzidos animais figurados, em seu repertório. Nele podem ser vistos Nega do Fogo, Jaraguá, a Burrinha e o Boi, o qual finaliza a apresentação. A época principal de exibição do Reisado é nas festividades natalinas, sobretudo no período dos Santos Reis, advindo daí a sua denominação.

 

Um fator importante na apresentação do Reisado é o seu caráter social, pois tanto congrega elementos de classes diversas, fazendeiros (patrões) e moradores (subalternos), como também valoriza a atuação desses indivíduos de classe social mais baixa, que nestas ocasiões, têm oportunidade de mostrar as suas habilidades artísticas.

 

“Ô de casa ô de fora,

Ô senhora vem ver quem é,

Ô é um homem e dois meninos,

Ô junto com quatro mulher... .”

 

Em qualquer localidade o Grupo de Reisado do Bairro Canela se reúne para cantar e louvar o nascimento de Jesus Cristo. Seu repertório apresenta uma variedade de peças, todas com suas particularidades que vão se desenvolvendo pouco a pouco, ao som da voz do mestre, respondida pelo coro dos seus contra-mestres (seus caretas), dando humor a cada jornada.

Eles cantam, dançam, pulam fazendo toda espécie de gracejo, pois tudo é aproveitado no Reisado, para provocar o riso, com suas deformidades corporais, atitudes grotescas, apelidos as criaturas, ditos populares (por exemplo, “meu amo”), vão aparecendo, durante o desenvolvimento do auto, em cena figuras da Burrinha, Jaraguá, Nega do Fogo e do Boi, para fechar com chave de ouro.

Caretas

Segundo a tradição, o reisado de caretas tem sua origem quando os três Reis Magos fora visitar o Menino Jesus e lhe ofereceram os presentes: ouro, incenso e mira. Porém, antes deles chegarem a Belém tinha passado por Herodes, que dizia também querer homenagear o futuro rei dos judeus. Herodes pediu aos Reis Magos que ao retornarem da visita passassem por seu palácio e comunicasse onde ele podia encontrar a criança.

 

Os Reis Magos ficaram maravilhados com o contexto em que o Filho de Deus nasceu, compreenderam que toda a riqueza e pompa eram coisas supérfluas. Passaram a louvar a Deus e saíram cantando e brincando. No seu trajeto de volta, para seus palácios, foram avisados por um anjo que não dissessem a Herodes onde Jesus estava. Pois Herodes pretendia matá-lo.

 

Contudo, eles tinham que retornarem pelo mesmo caminho de onde vieram. Surge, então, a idéia de se despojarem de suas vestes de luxo e voltaram usando máscaras e trapos, uma forma de louvor a Deus pelo seu despojamento e de enganar a Herodes. Retornaram pedindo esmolas e cantando por onde passavam, não foram reconhecidos como reis, mas como mendigos. Por este motivo se justifica a forma como os caretas se apresentam no reisado, sem roupas luxuosas e às vezes até descalços.

 

Nesse sentido, podemos dizer que o reisado de caretas é a desconstrução do harmonioso e do belo. Nas suas danças cada brincante expressa o que sente, ao ouvir as músicas, não tem uma coreografia única para todos. De acordo com os depoimentos dos brincantes, Jesus veio para transformar a sociedade e o reisado de caretas de certa forma satiriza a realidade na qual ele esta inserido.

 

Burrinha

A burrinha, assim como as demais figuras do Reisado são representações reais e mitológicas de um período da vida sertaneja, que consiste em bailados, nos quais os caretas têm uma participação efetiva. Ela representa, também, o poder do dono da fazenda ao ornamentar seu animal com os melhores adereços daquela época, o que de certa forma lhe dava status sociais. Embora seja um entremeio singelo, ele é muito apreciado no espetáculo pela forma como acontece, ou seja, dançado e cantado. O aspecto religioso é que além de testemunhar o nascimento de Cristo, por isso, é considerado como um animal sagrado para o sertanejo, ela traz em seu lombo as marcas da urina de Jesus em forma de cruz.

Jaraguá

O Jaraguá é a segunda figura a apresentar-se na folgança. Sua participação é breve. O Jaraguá é uma carcaça da cabeça de um cavalo que chega conduzido por um dos caretas. Depois de correr um pouco em meio aos caretas (papangus), morde um. Segundo a tradição popular, o Babau (Jaraguá) é um fantasma do cavalo de um antigo fazendeiro que costumava a assustar as pessoas que encontrava em meio ao caminho pelo qual passava. Ainda hoje os pais fazem referência a esta figura mitológica para amedrontar as crianças. Mas, segundo outros, isso não é verdade. Ele é um cavalo velho e magro que não consegue ficar mais exuberante. ;

“Boa noite meu senhor,

Ô Jaraguá,

Boa noite minha senhora,

Ô Jaraguá,..”

No decorrer das nossas últimas apresentações estamos vindo com um animal que decidimos por como mascote no grupo. Tudo aconteceu quando, íamos fazer nossas apresentações, este mascote sempre, todas as noites nos acompanhar. Percebendo a sua esperteza, decidimos então, preparar, juntamente com a sua dona, preparar uma bela roupa e passar a levar nas nossas apresentações. Seu nome é Branquinha.

 

Branquinha é uma cadela, que passou a ser nossa mais nova mascote. Com a presença dela no grupo, só tínhamos cada vez mais a agradecer. Pois a mesma fez- nos perceber o quanto sensível é um animal. Sempre que chegávamos nas casas das pessoas era de impressionar. Ela com sua roupa, toda elegante e chamando a atenção das pessoas.

 

Nega do Fogo

Antigamente, no sertão, eram costume as cotações de história envolvendo assombração e nas noites escuras algumas pessoas vestiam-se de branco, colocavam uma cabaça com uma lamparina acesa dela e ficava nos locais mais estratégicos para assombras quem por ali passava. A cabaça tem furos semelhantes a boca, olhos e nariz, dando a impressão de que fosse o Diabo. A partir desse mito surge o personagem no folguedo e está presente até hoje.

 

Boi

Há várias versões sobre a origem do auto do boi no reisado. Uma delas diz que Catirine, representada aqui segurando o rabo do Boi, desejou comer a língua do boi da fazenda e pediu ao seu marido, Mateus, no caso aqui é o Caboclo, para matar o animal. Por ela está grávida, ele acabou cedendo ao desejo da esposa e matou o bovino. Pressionado pelo patrão o caboclo recorre a orações e cantos e ressuscita o animal de estimação. O auto consiste na morte e ressurreição do boi.

 

 

Por; Wesley Nunes

 

 

 

 


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